Tuesday, October 16, 2012
Júlio Prestes, Museu da Energia e SESC Bom Retiro
Ao sair da Estação Júlio Prestes, me deparei com a dura realidade do local, na Praça homônima (Júlio Prestes): a temida cracolândia paulistana. Apesar de todo o esforço da Polícia militar em coibir venda, compra e consumo do crack naquela região, ainda assim, era visível e notório alguns pontos dessa epidemia de saúde social.
Percebi que a Rua Cleveland (a rua do Museu da Energia) ficava exatamente à minha direita, ou seja, estava relativamente fácil caminhar por lá. Apesar de todo o medo da violência e de também estar sozinho numa tarde ociosa de feriado nacional (dia de Nossa Senhora Aparecida - Padroeira do Brasil). Fui caminhando pela rua e esperando ansiosamente pelo número 601, o qual parecia não chegar mais. Felizmente, cheguei ao local são e salvo, sem ninguém ter me abordado.
Eram duas casas amarelas, com portão de grades cinzas, aberto e cuja placa sinalizava o Museu da Energia e entrada gratuita. Naquele momento, comecei a me lembrar de dois amigos mineiros, ambos engenheiros, mas um é Eletricista e o outro é Civil, com ênfase em Saneamento. Logo, tentei ligar para os dois, mas só um me atendeu. Após uma breve conversa, adentrei numa das casas, à qual um simpático vigia me recebeu
Pediu para que eu guardasse a mochila no guarda-volumes e recebi uma senha, além de um adesivo escrito "visitante" para colar na roupa. Assinei o livro de registro, uma vez que é importante para a administração do estabelecimento ter sua própria estatística de visitantes/dia ou mês, além da origem dos mesmos. E fui avançando, então, pelas salas de exposição. Elas mesclavam exposições da história da própria casa e respectivo bairro (Campos Elísios), a qual já tinha pertencido ao irmão de Santos Dumont (o pai da aviação brasileira), passado pelas mãos do movimento dos sem-teto, numa época de ruínas e atualmente estava sob a administração pública estadual. As fotografias e frases escritas nas paredes relatavam todo o processo de ascensão, decadência, restauração e retomada de posse pelo governo, cujo bairro também passou pelo mesmo processo, o qual hoje vive um período de tentativa de revitalização, mas a decadência salta aos olhos dos visitantes. E essas casas restauradas parece ser verdadeiras "ilhas de prosperidade" num bairro que já teve o seu apogeu e hoje vive parcialmente dominado pelas mazelas sociais da metrópole.
Percorrendo as salas, percebia o quanto parecia ser luxuoso morar ali na época áurea. A casa possuía inúmeros cômodos; além disso, também olhava com entusiasmo as explicações da decomposição da luz branca nas cores do arco-íris e vice-versa. Eu mesmo fazia uma alusão mental ao símbolo do orgulho GLBT mundial, o arco-íris. E pensava o quanto seria engraçado e divertido se tivesse algum(a) amigo(a) congênere comigo lá... Por alguns momentos, a felicidade transbordava tanto, que lágrimas insistiam em sair dos olhos... Parecia que tinha voltado a ser uma criança em pleno dia das crianças! Tudo era divertido, tudo era aprendizado, tudo era motivo para ser interessante e engraçado ao mesmo tempo. Eu não conseguia me conter, tamanha era a explosão de sentimentos de felicidade e entusiasmo! Mas precisava me conter, e enxuguei rapidamente as lágrimas do rosto. Brincava com os objetos disponíveis aos visitantes para ver a transformação da luz branca em diversas cores e vice-versa. Numa das salas, me senti como se tivesse numa boate LGBT, devido aos brinquedos de luz parecerem mais uma boate. Vi meu próprio reflexo em espelhos côncavos e convexos, além de quadros que simulam a visão 3D. Tudo isso me remetia ao tempo de escola e sua respectiva feira de ciências, a qual me lembro como se fosse hoje: nosso grupo tinha feito um caleidoscópio para apresentar lá. E, justamente esse objeto que não via há mais de vinte anos, estava lá; era como se falasse indiretamente para mim: pelo menos hoje, tente se lembrar dessa fase deliciosa que você passou, a sua infância. E logo após, um grupo de crianças com um monitor adentrava na sala que eu estava. Parecia que tudo estava premeditado para eu voltar um pouco ao meu próprio tempo de aluno e criança/adolescente e redescobrir o verdadeiro prazer de aprender uma das disciplina que não gostava, mas que aprendi a gostar na fase adulta: a ótica (parte da física).
Após toda essa viagem exterior e interior que senti, era o momento de deixar o museu e talvez voltar para casa... Mas no caminho de retorno, logo vi que havia uma unidade do SESC SP justamente ao lado do museu. Era a unidade Bom Retiro, cujo luxo da fachada se contrastava novamente com a decadência do bairro... E resolvi, então, adentrar. Talvez se eu não soubesse que o SESC é uma instituição que é para qualquer cidadão ou turista usufruir, não teria entrado. O prédio era imponente demais para aquele bairro e me deixava numa situação incômoda de que parecia estar entrando numa festa sem ser convidado.
Mas criei coragem e entrei! Foi simplesmente o mais luxuoso prédio de uma unidade SESC no Brasil que já conheci. A decoração, as pessoas que estavam lá, a estrutura arquitetônica... Tudo aquilo era impressionante demais! Era um verdadeiro clube que parecia me convidar para nadar, jogar tênis de mesa, ler um bom livro na biblioteca, ver uma exposição de fotografias, navegar pela internet ou até mesmo ficar parado para pensar na vida... Novamente, me senti como uma criança curiosa que quer conhecer cada espaço da nova casa, cada canto. E, assim, fiquei o tempo suficiente para conhecer aquela belíssima unidade, sem pressa e sem medo de voltar para casa. Uma vez que ainda a luz do sol da tarde tentava atravessar o céu nublado e com chuva fina daquela terra paulistana...
Dessa forma, era hora de deixar aquela segunda "ilha de prosperidade" e encarar a árdua realidade das ruas. A sensação de perigo me incomodava um pouco, mas estava começando a me anestesiar. E assim, voltei sem nenhum problema para a Praça Júlio Prestes e sua respectiva entrada para a estação. O problema era que eu tinha vontade de ver uma escultura que ficava mais ou menos no meio da praça. Mas parecia que ficava a quilômetros de distância, porque dali eu conseguia avistar pequenos grupos de pessoas suspeitas de serem toxicômanos e/ou traficantes. Como havia vários carros da Polícia militar paulista e um trailer estacionados do outro lado da praça, um carro da polícia da CPTM e também um carro da guarda municipal, criei coragem e fui até o monumento. Foi interessante pisar nos trilhos que ficavam no meio da praça e também ver rapidamente o monumento mais de perto. O mais interessante foi ver a fachada do prédio da estação Júlio Prestes. Como era bonito, imponente e grandioso. E ainda por cima, a bandeira do estado de São Paulo flamejava ao sabor do vento. E ainda tive o privilégio de ler, do lado de fora, cravado na parte alta da fachada: EFS (Estrada de Ferro Sorocabana). Provavelmente, pensei eu, era o nome da antiga Empresa que fazia o percurso São Paulo - Sorocaba.
E, assim, me despedi daquele delicioso passeio, o qual tenho muito prazer em compartilhar minhas experiências aqui...
http://www.cptm.sp.gov.br
http://www.cidadedesaopaulo.com
http://www.museudaenergia.org.br
http://www.sescsp.com.br
Saturday, October 13, 2012
São Paulo e Barueri
Após um longo período sem escrever nada neste blog, resolvi retornar hoje minhas atividades e registrar aqui cada viagem que fiz. Como foi muito tempo desde a última vez que escrevi e até o presente momento fiz tantas e variadas viagens, que resolvi recomeçar a partir da minha última viagem (a de ontem), 12 d outubro (dia das crianças).
Planejei que, no feriado de ontem, queria visitar o Museu da Energia que fica localizado na cidade de São Paulo. Além deste museu, há outras cidades paulistas que também abrigam estes museus com o mesmo nome, como por exemplo, Salesópolis, Jundiaí, Itu, etc.
Como já estou acostumado a andar pelas ruas pela capital paulista, apesar de me sentir inseguro em algumas regiões, resolvi assim mesmo ir para lá. Fiz uma pesquisa breve pela internet, para saber se era gratuita a entrada, ou não. Para saber também o horário de funcionamento e sua respectiva localização.
Descobri, dessa forma, que a entrada do museu era gratuita e estava localizado na Rua Cleveland, 601, Campos Elísios, São Paulo. Pelo mapa, percebi que era bastante estratégica sua localização, uma vez que ficava relativamente próximo da estação de metrô Júlio Prestes, cuja praça homônima fica em anexo.
O grande problema era que eu sabia e já tinha visto em outra viagem a São Paulo que essa praça, infelizmente, é o "coração da cracolândia". Como estou meio que anestesiado com esse verdadeiro drama social que turistas e cidadãos enfrentamos, resolvi criar coragem e ir. Cheguei a convidar quatro amigos para ir comigo, mas nenhum deles aceitou o convite. Viajar sozinho não é tão agradável quanto com amigos, mas mesmo assim, eu sentia que não poderia depender de ninguém para fazer visitas a atrativos turísticos, uma vez que a cidade de São Paulo é "gigante pela sua própria natureza" e cada um tem o seu estilo de vida, gosto para passeio e lazer, etc.
Assim, peguei o trem da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) na estação homônima Barueri, em direção à estação Júlio Prestes, em São Paulo. As viagens de trem e/ou metrô são extremamente confortáveis e tranquilas, desde que não haja um excesso de passageiros nos seus respectivos vagões. Como era um feriado de cunho nacional e também uma sexta-feira, naturalmente havia poucas pessoas. E, assim, atravessei as cidades de Carapicuíba e Osasco, antes de chegar em São Paulo.
Quando o trem chegou na sua última estação (Júlio Prestes), eu desci, pela primeira vez... A sensação era indiscutivelmente de ter descido numa sensação de trem dos anos 1920, mais ou menos! Havia bancos parecidos com os de praças na área de embarque/desembarque de passageiros. Eu olhei para o teto da estação e percebi que sua arquitetura era bastante peculiar, a qual retratava um prédio antigo, provavelmente do final do século XIX e início do século XX, uma vez que não possuo conhecimentos suficientes em arquitetura e história da arte para identificar. Mas eu me senti como se tivesse num filme épico, com chapéu, usando calça e suspensórios e sapatos. Fui me aproximando da catraca e vi duas esculturas imensas de dois gatos brancos e um vitral, o qual estava fechado, mas dava acesso para um imenso salão, cuja arquitetura era inebriante de bonita. Eu atravessei a catraca de desembarque e passei pela bilheteria. Mais uma grande e feliz surpresa: a bilheteria do metrô estava impecavelmente restaurada e resguardada pela sua arquitetura! A única diferença da época, é que estava lacrada com vidro blindado, devido à violência existente na cidade. Eu me sentia como se tivesse pegado um trem em 2012 e desembarcado por volta de meia hora depois em 1920! Era impressionante aquela sensação! Apesar de ter conhecido tantas cidades com arquitetura histórica, nao sei o motivo de pela primeira vez ter sentido isso. Talvez minha sensibilidade para este tipo de arte esteja mais aguçada, ou algo parecido...
Vou deixar para uma próxima oportunidade para terminar de publicar sobre a viagem de ontem, encerrando a primeira parte por aqui.
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